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08 abril 2009

O desterro e os óculos

Posted on 4/08/2009 10:48:00 AM by Théo, desarmado por um sorriso..


Pressão alta é morrer sem ter vontade, pressão baixa é querer dormir sem nem ao menos ter sono. Eu, experimentador que sempre fui, enjoei de tanta dor para experimentar e tentei o gosto do leite com sal, tentei o que nunca soube, mas esse sabor não me pareceu bom, então eu, experimentador que sou, quis entender o mundo dos que se escondem atrás de lentes, e experimentam enxergar como poucos desejam, não as das câmeras, que captam a alma dos que sabem vida e aprisionam o prazer de se estar vivo em cliques feitos de desejos e ternura, ou em vídeos, filmagens amadoras ou não, transeuntes de um espaço sem liberdade, mas as dos óculos. Na época de escola tive uma professora que se escondia por trás das lentes de uns que nunca embaçavam, era loira e linda, por ela passei grande parte da minha adolescência com um amor vestido de vermelho-ciúme enroscado no meu coração, e isso ela sabia, pois sempre que lecionava, falava, falava e gesticulava em acenos perfumados de claros cabelos, e quando baixava a cabeça para suas averiguações didáticas, suas lentes nunca conseguiam esconder o ligeiro lançar de olhos em mim. Sorria-se tímida, talvez se lembrasse do filho que nunca tivera, quem sabe me imaginasse mais velho, isso me fazia ter vontade de usar óculos para eu saber se também conseguiria plantar nela o mesmo interesse que tinha eu, talvez um toque de maturidade poderia me ser acrescido pela serenidade das lentes. Foi ela a primeira que me explicou pressão arterial, os efeitos do sal, a corrente sanguínea, mas eu, só conseguia sem disfarce olhar para seus olhos, também nus, atrás daquelas lentes, por isso nunca entedia uma só palavra do que me falava quando se inclinava à minha mesa. Minha dor era a professora de português do outro turno, o vespertino, que sempre chegava com lentes embaçadas numa, quem sabe, proposital tentativa de ouvir algum aluno mais gentil se oferecer para limpá-los, pensei em denunciar na diretoria, parecia feio aquilo, acaso não havia homens mais velhos para tal vergonha? Queria eu poder fazer o mesmo com a minha musa loira, adepta das lentes de correção. Quase duas décadas se passaram, e então um dia, assistindo o telejornal local, vi a notícia de um acidente na volta de uma praia famosa daqui, e entre os que se foram naquela tarde fatídica, um corpo tinha sido dado como não identificado, não se sabia nada deste, aparentemente sem documentos, nem bagagens, nem fotos, ou qualquer coisa que pudesse auxiliar na identificação. Dois dias se passaram e após ter sido tal corpo enterrado como indigente, um simples ninguém, um que foi e se foi, sem nunca ter sido, a notícia final de que conseguiram – prefiri não pensar como – identificar quem era a pessoa morta no acidente me chocou grandemente e me fez entristecer na alma. Seu nome era Cláudia, uma foto foi achada dois dias depois no local do acidente, em meio aos destroços. Parentes e amigos reconheceram, ela estava de óculos e havia também há pouco tempo perdido uma gravidez de oito meses. Essa foi a imagem que ficou dela comigo para sempre, desde o colégio, um filho que nunca tivera, eu triste por nunca ter sido mais velho, ela loira, linda, e de óculos, estes, nunca embaçados, só para isentar-me da possibilidade de me oferecer para limpá-los. Hoje, tudo o que queria era chorar uma saudade com lentes, e esquecer o meu desterro, sei que ela jamais chegará a ler isso, mas eu, ainda posso usar óculos e talvez embaçá-los com essa minha saudade. Pressão alta é morrer sem ter vontade, pressão baixa é querer dormir sem nem ao menos ter sono. Eu, experimentador que sempre fui, enjoei de tanta dor para experimentar e agora posso usar óculos, como sempre quis, mas agora é tão tarde.

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