23 Fevereiro 2012




Basta, ao contrário de tudo que se prega e tudo que se espera de uma experiência terrena , no mínimo descente, já não encontro mais forças pra me manter otimista.  Se eu escolhi sofrer, deveria ter dividido em 12 prestações, não cabe numa só vida, é demasiado pesado e manco, empenado pro lado .  Chega, eu peço arrego! Desisto, foi má idéia, ao mesmo tempo estou perdendo o poder de me queixar, de reclamar e o inconformismo esvaiu-se. Julgava que não, mas essa tríade me motivava a tentar mudar algo, caminhar em frente em busca de dias melhores... agora adormeço em pé, diante da vida e me pego a pensar, que tal? Tanto faz!

Empaquei como asno teimoso, cada um da-me um conselho, um mais distinto que o outro, qual eu sigo? Todos mudaram menos eu, todos progrediram, ultrapassaram-me, eu um poste estático de imobilidade mineral das rochas nas pernas, fincado no chão, como se fosse ponto de apoio de outras vidas, Função: Me perder enquanto ajudo outros a se encontrarem.  Farol eu iluminando desde 1980, embarcações pessoas perdidas, afogados e náufragos, pagamento: óleo de baleia pra queimar e um pouco de decepção.
Dentre tantos mundos vim parar neste, execrável, injusto, imissível no que tange ações e merecimentos, tosco mundo!  Enfadonho e medonho!!

Chega, se era pra aprender a lição, já aprendi, agora adiante! Vamos renegociar  as cláusulas, o experimento não deu certo.

25 Outubro 2011

Sobre um Livro de Comentários Perdido


Hoje reli coisas antigas no tempo, reli e me impressionei comigo mesmo. Por vezes acho-me gasto como grafia de caneta borrada, por gostas de água de uma biqueira alta, com ares de carrasco. A impressão que tenho é a de que minha estrela não brilha mais tão intensamente como antes, como num lapso desesperançoso, em uma cadeira de rodas imaginária, usando um cachecol que não combina com nada mais além de um desconforto iludido, expirado pra fora do peito (suspiro). São tantas mensagens positivas, tantos depoimentos, tantas palavras de força, de carinho, de admiração... Tanta coisa boa que não me ajudou nem sequer a atravessar uma rua... Pois infelizmente só eu mesmo poderia me ajudar, e acredite, eu tenho achado finalmente que isso é uma boa idéia. Agora estou rindo de mim mesmo num sorriso como tantos em minhas fotos, porém, só por dentro.

Acho-me asno por ser tão teimoso, acho-me teimoso por ser tão taurino e a culpa é toda do zodíaco, não minha, prefiro categoricamente me eximir dessa culpa, porque culpa é o que eu mais carrego, e não há mais espaços sinapticamente vagos, não há. Eu queria acordar numa ilha deserta, eu, uma mulher que eu ame e muitas planícies pra vadiar, mas a vida não é um sonho, na verdade nem o sonho é um sonho, o sonho é um desabafo simbólico do inconsciente. Enquanto isso vou me descobrindo entre problemas e não posso apelar para um super-herói qualquer, meus heróis são meus pais e um cara que me cobra por hora pra me falar verdades das quais eu preciso ouvir.

Sinto-me um besouro ricocheteando numa lâmpada econômica de 60 w, economizando pro amanhã, guardando energias, adiando a felicidade por acreditar em acordos de boca fluorescentes.
E para aqueles pra quem me dediquei em vão eu vos digo: Cuspa na minha mão como em Batter town, corte sua mão junto a minha, em pactos de sangue frágeis, e as ciganas não enxergarão mais nenhuma linha dominante nelas. Me enrole, me engane, finja, interprete malmente sua verdade e eu prometo partir no próximo ônibus espacial pra fora do seu planeta cosmicômico. Me colecione como eu te venero, esbarre em mim como eu me atirei em você e então estaremos quites, mas antes despedidamente, me olhe nos olhos e me ejete pra longe de uma vez, porque o muro se cansa do grafite assim como a falésia se deixa levar pela água, sem que esta arranque dela nenhum punhado de admiração.
Não peço nada em troca além de proporcionalidade exata e cativa. E para aqueles por quem me dedico de bom grado eu vos digo: Obrigado pelo carinho!

12 Outubro 2011

A última de amor.


Sua luz me atrai como a uma mariposa fascinada, dando rasantes circenses em seu mundo perfeito. Atraí-me pra perto, envolve em milhões de teias de sorrisos imantados, em seus pares de coxas expostos, na sua boca nervosa, em teu semblante plácido. No subúrbio dos teus olhos libidinosos eu choro uma chuva de equívocos, no teu toque eu me arrepio e subo 2 graus centígrados. Uma mácula esbarra em meus planos, uma muralha, e eu te vejo através das grades da iniqüidade, um passeio pela cidade à noite me faz lembrar teu rosto, as luzes dos postes passam por cima da minha cabeça pesada só pra me lembrar de que você é impossível, sinto vontade de te ver no banco do carona me fazendo rir um sorriso que ninguém mais me arranca da face congelada.


Mas o que eu julgava ser especial pra mim, vindo de ti, é corriqueiro para outros, a intimidade doada a mim é vulgar, é dessas medidas ínfimas de quatro casas decimais, quando se comparada a outros, e se esquivo a boca para moças que me querem é só porque somente cabe a ti em meu peito. Assim estou indo aos extremos até fugir da sua tangente, me perdendo, me anulando em troca de um néctar que só você produz e eu tenho que voar por perto, e você sabe que é igual a mim nos detalhes, e que falamos coisas ao mesmo tempo, e que completamos nossas frases e nos entendemos num só olhar. E eu sempre volto atraído por tua luz, e me sinto sujo por te desejar, é o ciclo teimoso da morte do meu ego, é a improbabilidade das minhas antenas ultrapassadas, é a dicotomia de dois sentimentos em peleja.

Só o que me cinge é o desânimo fatídico e talvez já famigerado para bons olhos de observador, qualquer um pode perceber a lassidão no meu olhar quando meu queixo fica prostrado pra baixo e meus ombros desabam se alguém te toca recebendo de ti permissividade lasciva. Chega o tempo que a dor nas minhas asas é maior que o bem de tua luz que me ilumina, é hora de me recolher, é hora de desistir perto da perciana, encolhido no canto da parede esperando alguém abrir a janela pra que eu possa voar pra longe, bem longe de ti.

15 Maio 2011

Dualidade




Uma parte de mim acredita a outra faz “tis!”, uma parte de mim estremece a outra inabalável torce o nariz. Parte de mim abandona, a outra sonha ser aclamada, Parte de mim me engana e a outra anseia ser amada. Parte de mim me enrola, a outra me abomina, parte de mim se joga e a outra me ensina, partes de mim partindo para destinos tão distantes, num aceno de mãos sem fim, em ciclos eternos constantes.

Parte de mim grita e a outra se cala, parte de mim exagera enquanto a outra desmaia, num vulto envolto partes de mim se chocam e se anulam, num suspiro morno partes diferentes de mim que se aturam.

Então me parto em pedaços escusos, em partes perdidas, em cacos noturnos. Parte de mim se parte, e a outra parte, não tem mais como ser partida. Parte de mim me invade e a outra parte se vê derrotada e desprotegida. Parte de mim é inexata e a outra é medida.

Parte de mim é inverno e a outra verão, parte de mim é partilha e a outra solidão, parte de mim é inferno e a outra comunhão. Parte de mim a arte de partir-se pelo chão.

Pêlos de gatos escaldados verão que gatos malhados à noite se igualam, enquanto esquinas se dobram e marquises se debruçam acima de mendigos enrolados em jornais, parte de mim acredita que a outra metade em mim se mete a entendida demais.

14 Abril 2011

Trinta e cinco

Quer saber? Eu sinto saudade, e isso é tudo o que sinto. Saudade... assim, como quem já não vive, como quem foi esquecido, coisa semelhante ao que se apagou das lembranças de outrem. Um trem que parte levando metade da gente, um aceno de mão que nunca deveria ser dado, um pedaço de meias verdades ditas sorrindo, só para iluminar a foto. Mas era menos complicado saudadear na infância, afinal, isso só durava uma tarde, e na noite e manhã seguintes eu reencontrava as duas da minha vida: a irmã mais velha e a amiga. Saudade era uma brincadeira de vida curta, agora tudo se tornou durável e o sentir falta é estado latente, instante, e entristece tanto. Preferia não entender o ponto em que isso mudou fazendo brotar em mim essa idéia constante de falta que só aumenta com o aumentar dos anos, e quando estes já somam trinta e cinco, as saudades todas já não mais cabem em uma cidade de oitocentos mil habitantes.
Vejo agora que a cada ano acrescentado à minha vida, proporcionalmente são também acrescidas novas saudades e porções a mais das já existentes. Saudades de uma casa azul desbotado, de uma rua calçada, de um campo de futebol de terra batida, de amigos com dentes de leite, de sessões de sábado, de Jairzinho e Simony e Balão Mágico, de refrigerante Taí, de DipN'Lik, Iô-iô, de claramente ouvir a voz de Deus, mesmo sem saber quem estava falando comigo, de ficar feliz em ver Taizinha sorrir, de passar o ano esperando o Natal e os poucos presentes. Trinta e cinco anos se passaram, e hoje eu me acostumei com a dor...

03 Abril 2011

AABB

Ainda me lembro daquele brinquedo de girar, presa na minha cabeça aquela imagem gira e gira sem parar no tempo espaço, em algum lugar do passado de um clube que eu frequentava, brincando com amigos ouvindo uma música no rádio que saia de um alto-falante preso a um poste, numa caixa preta.  Um atalho pro passado, pra um local inacessível  aos outros , acessível a mim somente dentro de minha cabeça, tardes em que o sol estava preguiçoso e não queria aparecer, tardes azuis, poucas núvens e vermelhas ao sol se por.  Toda aquela vida passando devagar, muito menos violenta, muito menos bitolada, muito mais sinestésica, tete a tete e propagandas interessantes na tv.

11 Março 2011

Resquícios de mim



Eu namoro as letras, já não há mais moças direitas a namorar, a minha grama está seca sobre um solo despojado de encantos. Tudo que eu queria me falta, toda a sobra do que não quero vêm me abraçar, as esquinas se curvam às ruas hoje estranhas a mim, um carro vai veloz com um sorriso de alguém no interior dele que nunca mais passará por aqui. As velas só derramam sua parafina despendida pelo fogo, meus olhos só derramam minhas lágrimas desprendidas pelo coração em chamas. Tudo em que acredito não se aplica a mim, meu tempo nunca chegou, minha canção esta arranhada em algum vinil perdido no passado.

Minhas luzes me abandonam, meus sentidos zombam de mim, meu instinto me trai tão distraidamente quanto um cachorro no jardim de um hospício. Minhas peças estão em um tabuleiro de xadrez gasto como se eu enfrentasse Bobby Fischer e estivesse sempre em xeque, meu cantil não tem mais água, minhas idéias voam como na cabeça de Chris Mccandless. Na minha caverna eu me esquivo como Platão, em suas fendas eu me encerro como William Blake e me revigoro ao sobreviver como Daniel na cova dos leões.

Nada me interessa, nada me motiva, abençoado seja o controle remoto e as pilhas alcalinas, pois bem, adoro os olhos de quem sabe fazê-los brilhar intensamente mesmo sem destino.

Minha caneca preferida está rachada, assim como arranhado está o meu espírito, me apoio em mim mesmo como um hipocondríaco delirando ao adentrar uma botica esplêndida, me enxergo amanhã como nunca me vira antes.

Deixo-me especular sobre os meus próprios sonhos, me deixo roubar a mim mesmo, puxando um Ás por baixo da minha outra manga e mesmo assim, me surpreendo como sou sincero e íntegro não a mim, mas, por conseguinte a ninguém. A vida é um jogo, e o crupiê que da as cartas pegou num sono profundo.

18 Novembro 2010

Sentidos, Tempo e Espaço...



Todo mundo muito ocupado
Por todo o mundo
Todo mundo seguindo em frente
Por todo lado
Em toda parte ou qualquer partida
Por todo espaço
Por toda vida

Todo mundo muito distante
Ali do lado
Todo mundo medindo atenção
Sem saber pra onde
Em todo canto
Em qualquer canção

A toda hora, a qualquer instante
Em qualquer andar
Em qualquer olhar
Em qualquer semblante

Em qualquer parada para abastecer
Em qualquer escada rolante
A subir e a descer
Todos muito ocupados
Com seus sentidos
Todos muito aguçados

Indecifráveis
Indefiníveis...

26 Julho 2010

Eu Lírico


Quem ampara o poeta? Quando na face falta-lhe o riso, quando no coração falta-lhe a alegria risonha ou quando no olhar falta-lhe o brilho?


Quem dá de comer ao poeta? Será dele gerar suas próprias frases de efeito um ofício? suas citações próprias, se auto-projetar em sua própria sombra seria seu vício?

O poeta já não dorme... ferida de guerra que não sara, ferradura pesada aos pés de difícil locomoção, salvo ladeira à baixo na estrada.

Quem interpreta o papel do poeta? Quem canta suas odes? Quem escreve sua novela? Quem canta seu musical? Quem suporta suas dores dos amores perdidos?Que gênio realiza seus 3 pedidos?

Ser poeta é amparar o infinito, pois no fundo do âmago das dores vorazes, só a ele cabe entender-se, com a ajuda tão somente do espelho da alma, não há “nós” na primeira pessoa do plural da desilusão poética, não há outro alguém pra dividir o peso , só há o “eu”, o eu lírico.

23 Julho 2010

Assim espero


Eu espero que você desde muito cedo saiba o que quer de sua vida, mesmo que talvez por um desconhecido azar, espero que exista alguém que te aconselhe numa direção do que fazer dela, e se mesmo assim você der muito azar, descubra que profissão seguir antes dos 25 anos.

Espero que nunca se apaixone por alguém que desconheça esse amor ou que o desmereça, agindo contigo de forma a te causar dor. Espero realmente que tu encontres alguém que te ame de verdade e nunca se sinta pedante de um sentimento afetivo alheio. Espero que teu amor nunca tenha vergonha de ti, que te ame pelo que você é e nunca te compare a outro alguém. Espero do fundo da alma que você nunca seja o plano B na vida de outrem.

Espero que ninguém te chame de dramático, espero que ninguém te ache grudento e que ninguém te ache um chato, você será feliz numa ordem inversamente proporcional ao número de vezes que sua presença gerar fastio as pessoas que querem te ver longe. Espero que você descubra rapidamente a arte de não incomodar pessoas, por que a arte de evitar pessoas já tem sido praticada há milênios antes do teu nascimento.

Espero que sua vida pessoal não seja assunto na mesa de jantar de estranhos, ou parentes muito próximos e incrivelmente distantes. Espero ardentemente que as tuas fraquezas não sejam motivo de piada e chacota para divertir uma platéia caseira, servindo de mau exemplo para a posteridade. Espero que teu carma encarnado e despido diante de tais olhos não dure mais que meia hora de horror.

Espero que você tenha uma adolescência bela, cheia de ritos de passagem e conquistas de liberdade e amadurecimento. Espero que você perca a virgindade de uma forma sadia e segura, espero que você nunca regrida em nada e sempre evolua, espero que os excessos te ensinem algo e que haja sempre um bom amigo pra te aconselhar como agir e ótimas lembranças pra se contar. Espero que as drogas te errem e que teus pecados sejam perdoados.

Espero que você seja proativo e tome antioxidantes e combata o teu stress. Espero que uma bala perdida nunca te ache, e que um carro pilotado por um bêbado nunca te amasse a carne fraca. Espero que teu coração seja acalentado e que você chame esse alguém de Deus mesmo não acreditando nele. Espero que a natureza te ajude a ser belo, pois amamos o belo, louvamos o belo e queremos somente o belo, a feiúra agride e o resto é hipocrisia.

Enfim espero que você não erre e não seja tão banal, espero que você viaje muito e conheça muitas culturas, espero que você tire um milhão de fotos, espero que você saia do seu mundo invisível formado pelos quatro pontos cardeais, do seu universo restrito, do seu cotidiano... Espero que você torça por um time campeão, se sinta em paz em alguma religião e que nenhuma doença do acaso te leve embora precocemente da vida.

Espero que você encontre prazer verdadeiro, que teus amigos te liguem ao telefone e apareçam sorrindo em tua casa. Espero que você tenha filhos fantásticos que te encham de orgulho exagerado, espero que teu trabalho seja gratificante e que te compre alguns belos sonhos, assim como espero que a paz caminhe em teus dias.

Espero que você não tenha problemas ao ponto de tomar diazepínicos, nem que tenha depressão, ou qualquer distúrbio ou transtorno... Espero-te em perfeita sanidade mental quando nos encontrarmos no paraíso. Espero que teu sonho nunca acabe.

Espero que a tristeza te abandone e que você nunca escreva poemas dos quais não consiga terminar, espero que o mundo te dê outra chance, espero que tua dor suma, que tuas chagas sejam curadas e que nunca mais chores antes de dormir. Espero que você n fique em pedaços, assim como estou agora, catando-se num longo desabafo.

03 Abril 2010

Resumo


Apresentação de trabalho proposto como requisito para avaliação parcial da unidade I.
Link:

15 Janeiro 2010

Todas as Desculpas



Todas as desculpas são desnecessárias, sem remorsos, hoje dor amanhã um espetáculo de placidez, ela me faz bem, ela me faz bem... Ela e às vezes a vida.

Minhas veias são amestradas, minhas pupilas dilatadas, sabor, furor, olhares trocados na escada rolante do shopping, vendedores de lojas de sapato, tênis mais que sapatos, mais que meias nos pés dos jovens ansiosos.

Família, futuro, parentes, paredes com marcas de rabiscos, sobrinhos com sorrisos hidrocor. Escova de cabelo, escova de dentes, dormir, acordar, receber um abraço gostoso! Gargarejar e sair correndo atrasado, olhar pro relógio apressando o tempo querendo encontrar alguém.

Todas as desculpas são desnecessárias se estivermos felizes ou esperançosos, toda dor vai pelo ralo de um banho demorado, toda dor some com aquela voz no telefone, ganhamos o dia se recebermos um certo beijo, um certo afago.
Nunca mais esqueci como amarrar meus cadarços do sapato, comer um sonho sentado no banco da praça... que dia bom! Meio sem graça mas bom, essa meia está apartada, chegando em casa quero andar descalço, e na tv passa um comercial de refrigerante enquanto eu estou com muita sede de viver.

08 Janeiro 2010

De tudo que muda


Eu sei, todos no fundo sabem, somos tão inconstantes que nos tornamos acostumados a esquecer. Um não de quem esperávamos talvez sins sonoricamente regozijantes, uma mesa nua e vazia onde antes duas xícaras brincavam de quem esfriava primeiro o chá, um vaso azul aprisionava flores monocromaticamente indecisas onde agora só existe um chão vestido de piso quase novo. Num dia acordamos capitães de nossas vidas, noutro, nos deitamos passageiros de um destino desgovernado. Sorrindo percebemos a necessidade de não se guardar na memória nada que rime com saudade, pessoas fantásticas podem causar medo e fazer o estômago amargar a boca, por estas nos apaixonamos, estas parecem que nunca se apagam. E isso tudo importa, não como deveria, mas na maioria das vezes não conseguimos controlar a medida da importância que atribuímos às coisas que nos são por vida. Um dia eu vi a foto de uma garota, ela me guardou nos olhos quando nos falamos à distância pela primeira vez, era coisa de internet, esse mundo fascinante que minha mãe acredita ser um tipo de universo paralelo, e eu a tranquei em meu coração. A foto dela eu fiz parar em “Meus Documentos – Minha Imagens”, e o cheiro de leite que ela me confessou ter arrumou um colchão e um travesseiro e foi morar dentro de minhas saudades. Toda vez que essa saudade acordava eu corria e deixava meu olho lamber aquelas fotos presas lá em “Minhas imagens”, e então ela, a saudade, como os ursos nas estórias infantis que sempre adormeciam ao ouvir uma linda canção de ninar, voltava ao seu colchão rapidinho, e dormia toda cheia de roncos, de travesseiro entre as pernas e dedo na boca. Tenho a impressão que minhas saudades temem aquelas fotos enfeitadas de arco-íris em manhãs de sábado, mas enquanto humanos, somos tão variáveis. O cheiro de leite que ela parece ter eu nuca senti, e as fotos que dela tenho sempre mudam no outro dia, hoje elas não amanheceram enfeitadas de raios de sol, como de costume, mas isso é bom. Antes essa menina falava comigo me soprando as muitas cores que se misturavam em seu coração, agora suas palavras são tão cinzas que eu brinco de escrever nelas. Lembro que perto da minha mesa havia um vaso azul que aprisionava flores monocromaticamente indecisas, eu escrevi “saudade” no cinza da falta de cores que agora impera tão silenciosa em suas palavras...

14 Dezembro 2009

Dia de Cão



Nunca mais eu havia suspirado assim, nunca mais havia sequer suspirado, não sonhava e nos meus sonhos não beijava ninguém. Meu cachorro suspira, Deus sabe o quanto eu queria ouvi-lo falar de suas sentimentalidades, entendê-lo, gostaria de sentir o que um cachorro sente ao suspirar tão humanamente quanto eu num dia de cão, talvez eu sinta... eu molho biscoito no café e dou a ele esperando que sua alma canina sinta um pouco de humanidade, espero que ao dissolver aquela massa umidecida eu encontre nele um sinal de que somos todos animais que sonham.

Acordei pensando nela outra vez, ouro de tolo quando se pensa ter algo perto das mãos, quando o impossível chega sorrindo e te abraça com força e saudade, o impossível me ama! ela não.

Eu sinto uma tristeza imenssa quando a música acaba devagarinho, diminuindo o seu volume e vai sumindo, me da saudade quando acaba o livro, me da saudade quando acaba o ano, me da saudade quando num domingo a tarde viajo de volta pra casa.
Me sinto triste quando não me sinto feliz, não preciso estar necessariamente triste pra me açoitar a tristeza, basta eu não sentir euforia, para cada “15 minutos de fama” e alegria eu vivo 1 hora de tristeza ou outro sentimento derivado semelhante a ela. Pensando assim não vivo, apenas regrido numa conta negativa rumo ao infinito...

Eu não sou essa pessoa que hoje encontro no espelho, sou a morte de muitos eus, sou um renascimento diário, sou descendente de mim mesmo, eu não sou eu vou sendo, quando dá, quando der. Meu sonho era causar nas pessoas o mesmo impacto que as pessoas causam em mim, gostaria de que as marcas que me deixam no peito eu também as deixasse em todos aqueles corações que me agradam. Hoje eu fingi, hoje eu n sabia o que sentir, hoje foi um dia de cão com direito a coração querendo sair pela boca.