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30 setembro 2008

Faltando palavras


Cresci no espaço de tempo entre os aplausos e o lavar do rosto do palhaço, nunca me coube motivação para esperar o outro espetáculo, sempre fui mais menino no corpo, tinha a alma envolta numa nuvem de estar adulto que raiar de sol algum dissipava. Vivia tentando ser outro que não eu, inventando liberdade, uma que jamais chegou, de noite e de dia, em pé e deitado, não desistia de tentar, e era bom. A mãe com a boca cheia de palavras que eu vivia a catar pelo chão, coitada, ela nunca soube guardá-las direito debaixo da língua, aonde quer que fosse sempre deixava para trás um rastro de sílabas barulhentas que ninguém mais queria apanhar. Digo verdadeiramente que me importava mais com as que ficavam na sua boca, pois estas sim poderiam fazê-la sufocar, eram palavras grandes, que não ouso pronunciar ou ainda escrever. As que caíam me deixavam aliviado por que eu as recolhia antes que alguém tropeçasse. Um dia acordei e desisti de tentar liberdade, lembrei que não tinha certeza de já tê-la colhido pelo chão, acho que esta era uma das poucas que mainha conseguia guardar de forma correta dentro da boca, talvez por ser palavra pequena, de resto, bonita, e foi então que abri os olhos e corri para conferir, no fundo da casa, palavras recolhidas, caídas da falta de jeito de mainha para engolí-las, haviam tantas, mas não achei liberdade, e qual não foi o meu espanto quando percebi que não era só esta, amor também nunca escapou de debaixo da sua língua, e outras que preferi não mais perceber. Mainha derrubava tantas palavras por onde passava que por muito tempo cheguei mesmo a desconfiar que fosse coisa proposital, seu andar nunca foi trôpego ou coisa assim. Hoje, as palavras não mais caiem da sua língua, penso que viva agora num silêncio melhor, então aprendi que não se deve deixar cair o que guardamos de forma correta. Sinto falta de apanhar do chão tantas palavras.
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[Moro num silêncio alugado, desisti do sonho da palavra própria] André Gonçalves