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07 setembro 2013

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Costumava ficar até tarde da noite, esperando todos dormirem, só para sentir um pouco do gosto da liberdade que imaginava teria para sempre com a maioridade. Desde cedo entendeu que seu lugar mais confortável esboçava-se no vazio na alma que a falta de móveis de uma casa pode causar. Sua casa era um tipo de moradia intrometida, daquelas que a gente vai aceitando aos poucos pela insistência em fazer parte da nossa vida, mesmo quando não concordamos. Era uma casa que incomodava as raras visitas com a velhice de seu teto de telhas deprimidas e pelas feridas úmidas de suas paredes senis. Era também um pouco refúgio, mas muito mais, objeto de opróbrio, pela qual nutria uma vergonha instante que o ameaçava constantemente acompanhá-lo por toda sua vida. Toda sua vida, esta cabia na palma da sua mão, era tudo o que ele pudesse segurar com apenas uma delas, nada mais possuía. Ainda assim, vivia ele numa época áurea, tempos que deviam voltar para alegrar outra vez um coração que alcançou a maioridade tão somente pela contagem dos dias. Uma época onde costumava o céu chorar com muito mais freqüência, e era um choro lindo, como os de saudade de quem foi embora, sem nunca ter saído de dentro da gente. Lembro que alguns dos mais queridos amigos faziam de tudo para escapar das semiprisões maternas que do mundo nos queria privar por medo de nos machucarmos, e em meio a algazarras vespertinas íamos percorrendo todas as ruas do bairro, colhendo com a pele todos os pingos de chuva possíveis.  Assim era a década de oitenta, a mais fascinante que houve. De tudo o que vivi até hoje, guardo muito, um oceano gelado de tristezas cinzas, mas também um Plano Galáctico de dias felizes.