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17 abril 2006

In Memorian




A maior perda da humanidade se dá, quando um homem culto falece e não passa adiante todo o seu conhecimento para pessoa alguma, quando sua carga de intelecto finda-se selada com sua morte.
Não se consegue transferir completamente o conteúdo de sua mente pensante sem que algo se perca, em vida, somos o que somos devido ao conhecimento que temos acesso, vindo de pessoas que sabem mais do que nós para que um dia saibamos mais do que elas, somos um somatório de uma progressão aritmética de saber, somos eu e você que formam um resultado influenciador e influenciado pela natureza humana de transferir conhecimento.
Eis que alguns, por motivo desconhecido, como por descuido divino, avançam muito mais além do que nós e nos deixam de relíquia, o desafio de tentar entender seus pensamentos sem o devido material humano necessário para isso, talvez gerações futuras consigam realizar essa tarefa. Enquanto isso o silêncio é mais esmagador sobre os impacientes que sobre os mudos no mundo racional.

18 fevereiro 2006

Meus sobrinhos


Da porta que se oferecia aberta pela esquerda da sala saiu correndo, brincando de algazarra várias palavras mal pronunciadas, todas eram felizes e estavam pulando umas sobre as outras. Ouvi de longe alguns "ês" e "ahs" que pareciam me fazer voltar à época em que tinha eu mãos que não chegavam a sete centímetros e cabelos de fios com menos de cinco anos de nascidos sem nunca terem sido cortados. Eu era naquela oportunidade parte daquilo, hoje, não mais que um estranho, um intruso que não aceitou crescer, alguém que é sem ao menos querer ser...
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[Como é lindo ver meus sobrinhos brincarem]

01 fevereiro 2006

Sleep


sleep
Life caption

"A engenharia cai sobre as pedras
Um curupira já tem o seu tênis importado
Não conseguimos acompanhar o motor da história
Mas somos batizados pelo batuque
E apreciamos a agricultura celeste
Mas enquanto o mundo explode
Nós dormimos no silêncio do bairro
Fechando os olhos e mordendo os lábios

Sinto vontade de fazer muita coisa...."
(Chico Science)

26 janeiro 2006

Metamorfose



Quando tudo depende de algo, quando todos esperam, algo... Quando anoitece e você começa a sonhar, todos os dias, alto... Grandes necessidades, poucos recursos, às últimas chances de mudar. É difícil admitir que precisamos de ajuda, é difícil desistir e é difícil continuar tentando, começamos a levitar e algo nos traz pra baixo novamente, conhecemos isso com o nome de Realidade, é tudo que nós temos. A única coisa que podemos fazer é modificar nossa realidade para melhor, como convir, como melhor for diante de nossas necessidades, mudar é a capacidade mais extraordinária que o ser humano pode conceber em seu âmago.
"Hoje eu acordei
Agora eu sei
Viver no escuro
Até que a chama se acenda..."

14 janeiro 2006

Aritmética

O dia todo, todo dia, sem faltar nenhum, sempre tenho a sensação aritmética de que o ontem mais o hoje é igual a menos um, deveria ser mais dois.O interessante é que das coisas que menos gosto de pensar na vida, a matemática figura entre os primeiros, ela está sempre associada à idéia de chatice exacerbada.Mas ontem sequer eu somei, ou ainda, dividi – o que seria louvável.Na verdade, só subtraí.Foram diminuídos meus dias – menos um, multiplicadas minhas dúvidas – à terceira potência, outra vez diminuída minha paciência com problemas idiotas – menos quinze agora. O dia todo, todo dia, sem faltar nenhum, sempre tenho a sensação aritmética de que o ontem mais o hoje é igual a menos um.Deveria ser mais dois.Odeio pensar algebricamente, preferiria passar meus dias tão somente a observar as pessoas andarem, ou ainda, a própria vida passar de saias curtas às minhas vistas.

14 dezembro 2005

Amor - Guia de Corações Cegos



O amor é como um guia em tempos de corações cegos, ele que movimenta as galáxias misteriosas de nossas bocas num sorriso largo, afago da alma.
Ele nos fortalece, e nos faz fortalezas, cria e recria os cálidos beijos, as compulsivas demonstrações de gostar, de querer... A menor distância entre dois corações.
Eis o amor, simples, imparcial e resmungão, insistente e persistente, e quando tentamos nos encontrar, ele já esta ali a nossa espera...
Ele nos faz falar de nossas sentimentalidades, ele nos conjuga a seu modo, nos governa às ações, e nos guia através da noite eclipsada... Por vezes nos tornamos seres bem mais completos que imaginávamos ser um dia, bem mais ternos e suportavelmente fortes.
O amor meu jovem, corteja a si mesmo, conta estrelas no céu e ainda escolhe uma pra darmos de presente. É uma parte de nós doada, não por nós, doada por ele mesmo.
Eis o amor: sopro de todas as luzes ao coração

24 novembro 2005

Linhas de expressão



Recordava-se agora que era velho, era velho mas sua mente era jovem, ali sentado ao banco de uma praça qualquer, entretido com o vai e vem das pessoas, olhar eclipsado, calmo, terno como um cervo, terno como o brilho de um espelho d´água plácido... Lembrou-se do tempo em que temia a vida e o futuro, lembrou-se das incertezas dissolvidas com o passar do tempo, dos anos... Estava amadurecido, entendia agora o sentido das coisas que o cercava, diferentes mas seguindo um mesmo princípio.
Quase não fumava, mantinha estendido nos dedos o cigarro como algo ilustrativo, sua presença era o bastante, num desses momentos em que nossas mentes viajam em pensamentos felizes, fumar era o que menos importava... Lembranças, ahh as belas lembranças, todos nós as temos guardadas em nossas mentes. Certas vezes esquecemos delas, outras vezes são apagadas pelas dores. Esse velho senhor sentado ao banco estava mais radiante que de costume, a vida o ensinou que a sincronia “homem e tempo” só se torna absoluta quando a idade avança, é uma forma natural de compensar a perda de um ritmo cósmico e físico mundano, o tempo não, este não se sabe nem se estabelece idade, então decidiu ser como o tempo, ser implacável e forte, decidiu viver eternamente como ele nas cabeças de quem lhe foi próximo e íntimo.
Cada ruga – pensava – valia a pena, cada dobra, cada expressão, cada falha momentânea de memória, almoçar com uma colher das de chá?¹, cada segundo pausado por recordações, cada dor lombar e tosse insistente... Mais insistente era ele, ancião saudosista e não melancólico... Melancólico apenas quando chovia à noite. Plantar árvores?² Mais valia plantar alegrias nos corações humanos, pensava ele. Seis da tarde, hora de voltar pra casa e no caminho, a padaria o esperava como um velho amigo imortal.

¹ Quando se vai fazer uma refeição e escolhemos na gaveta, os talheres errados por algum motivo desconhecido.

² Referência ao ditado no qual se diz que um homem antes de falecer, deve: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore.

11 novembro 2005

Surreal



Um raio de luz me trouxe aqui, 2 segundos antes de mim mesmo e quando nos encontramos, eu e meu corpo, tive esta visão:
Vi uma torre imensa, feita de soluços e hesitação, pendia para os dois lados ao mesmo tempo, havia uma parte de esperança e comunhão que estava fixa como rocha, untada com uma liga de amizade que não se vende mais em potes como antigamente... Uma legião de anjos e pessoas normais conduzia um arado faraônico abrindo uma rastro na terra pra poderem sujar os pés com natureza de verdade, neste momento começam a rolar gotas das lágrimas de um dragão sentimental, todos o chamam pelo nome mas ele se sente rejeitado em sua caverna escura, trazem lhe uma vela branca de 7 dias mas ele explica que sua semana dura 1 século... Trazem-lhe um feixe de néon e ele explica que não enxerga o lilás, agora trazem-lhe todas as cores e o dragão sorrindo aquece seus corações... Todos em volta da vila pisam a terra, pés de pisar em Marte, sorrisos de elfos mortais, as gotas agora caem pra cima, molham o meu queixo. Enquanto isso desce da montanha de grama um velho tuareg com asas de Ícaro e um manual com letras escritas em punho de "Como levantar do chão estrelas cadentes". Eu continuo na minha escrivaninha imaginária com cadeira de gesso frágil escrevendo e escrevendo, a água retorna às nuvens e as nuvens retornam ao sopro mágico de algum Deus, que ficou compadecido com o pedido de um velho índio, que ficou comovido com a dor de um sertanejo que não tem avião de fazer chover, nem erva de fazer sorrir. Visto de cima o lago abaixo de meus pés parece um espelho, surgem bolhas, agora as bolhas descem para o fundo, alquimistas regam experimentos com estas águas e em tudo vemos água, líquido da vida... Em destilações fracionadas separam amor de ciúmes, ódio de paixão , felicidade de tristezas, dor de prazer e nada mais será confuso, a dúvida é só mera ilusão. Papiros nas mãos caminho eu até o raio que me esperava com a velocidade da própria luz, impaciente, discutia levemente com um sujeito chamado Escuridão que tentava sentar no seu lugar. Acordei com os pés no travesseiro e com a cabeça num mundo chamado de lua.

31 outubro 2005

Conselho de Amigo



Se eu tivesse que dar-te um conselho eu diria: “Seja racionalmente sincero”;
Costumamos causar dor a quem nos é próximo e íntimo, julgamos que o peso de nossas palavras recai como pena aos ouvidos alheios... no mínimo cócegas estas fariam se em verdade não fossem pesadas como chumbo.
Porque não somos sinceros sempre e sim, somos sinceros quando queremos ser.
Porque não somos sinceros com nós mesmos e sim, sinceros quando apontamos para o lado.
Se eu pudesse dar-te um conselho, diria “pare de queixar-se”;
Seu fardo não é maior que a força que tens em carregá-lo, muitos dos nossos problemas são germens de nossos “trigos” mal colhidos, são frutos dos nossos defeitos mal tolhidos e como conseqüência nos causam desventura. Tristes as, tristezas vãs, tudo passará através de nossos olhos atentos, escorrerá entre os dedos, virará pó e esquecimento. Antes disso o sofrimento será opcional como num kit compre 2 e leve 3 de supermercado.
Se eu pudesse dar-te um conselho, diria: “Não queira impressionar”;
Impressione-se primeiro, a admiração vem quando nos tornamos nós mesmos, espontaneamente, livres de engodos e artificialidades, o mundo nos ouvirá mesmo em silêncio profundo.
Se eu pudesse dar-te um conselho, diria que conselhos são travas de segurança doadas por amigos para desavisados temporariamente: daltônicos cegos, maestros surdos, mestres mudos e tímidos sinestésicos.

06 outubro 2005

Galápagos




Quero ser livre como um pássaro, não um pássaro qualquer, quero ser impávido, cheio de galhardias e exuberância, quero pairar no ar de minhas conquistas, quero alçar vôo nas maiores alturas inexploradas, quero que o Boeing tenha inveja de mim, eu seria meu próprio passageiro, sim seria bom!
Mas o peso que recai sobre mim e tão colossal que visto minhas pequenas proporções não lhe guardo rancor, antes o condor voasse mais baixo! Assim ele poderia me avisar quando eu estivesse distraído de mim mesmo, e neste pequeno instante, neste lapso de consciência momentâneo, eu aproveitaria pra sonhar... Sonhar com novos ares, verdes piteridófitas, imensas angiminiospermas dando frutos, e elas dão frutos? Não lembro! que seja, uma floresta intocada cheia de reflexo da terra... Um garoto pouco falante vem soprar meu alpiste, mal sabe ele que também sei fazer isso, é só um segredo que nós cacatuas guardamos dos outros seres, conheço algumas palavras do seu vocabulário, mas ele ignora todas do meu. Só agora lembro que vivo num viveiro, acho que os caracóis são mais felizes, um pouco lentos mas felizes... Esse som de walkman me lembra o tempo que vivia no zoo.
Hoje sou um passaro bicho de cidade que sonha morar em Galápagos, vendo os comerciais da tv, hoje afasto-me dos raios de sol pois julgo que estes me causam mal as penas alvas, preocupo-me com o efeito estufa, preocupo-me com a criminalidade, meu Deus estão traficando animais em tubos de pvc! tenho claustrofobia!! quem dera fosse criado por um monge tibetano, ou minha imagem fosse símbolo de bandeiras como a de Papua-nova-guiné. Acho-me uma ave frustrada, queria ter nascido em outra época, sem viveiros cativos, até hoje espero que paguem o meu resgate, não entendo, eu era rico e livre, livre como o velho índio cherokee que criou meu tataravô, hoje sou velho como a linda ilha de Galápagos.