Advertência!

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27 março 2009

Insatisfação


Tenho andado deveras enfadado dessa rotina de se viver os dias de agora. Trago em mim uma dor não pertinente à minha jovialidade, uma nostalgia quase senil que insta em me ser companheira fiel, é uma saudade visceral de um tempo que não me pertenceu, é a não menos real que clichê “saudade daquilo que não se viveu” que em mim grita mais que minha voz. Vivo numa época que não considero mais minha, as relações entre as pessoas já não mais são aprazíveis aos meus olhos, é tudo tão sem propósito, fútil, vazio, numa riqueza de efemeridades que assusta sem trazer costume. Da mesma forma que se aproxima, se afasta, não há mais o “sorver” o melhor de cada pessoa, de cada amizade, desapareceu por completo a paixão e o afeto espontâneo entre as almas viventes. Mais prazer haveria experimentado meu coração acaso tivesse vivido na década de trinta, quiçá, sessenta. Já não caibo em mim de tanta saudade, não daquilo que experimentei, mas daquilo que nunca tocou o meu coração.

26 março 2009

À queima roupa


Prestando bem atenção, eu não sei o que você diz. Sua voz sempre cai pelo chão antes mesmo de chegar aos meus ouvidos. Não os tapo, eles ensurdecem de outra maneira, nem mesmo sei dizer se seria sua voz muito pesada ou se as asas de tuas palavras são feitas de cera, sei tão somente que quando tu abres a boca, nunca ouço nada. Seria o chão entre nós sempre transmutado em buracos negros? Às vezes acho que onde pisamos, magnetizamos, e lembro agora que todos os teus sons e fonemas me soam como aço. Não quero nunca mais precisar lembrar nada que me dizes, por isso agradeço por sofrerem de oxidação tuas palavras. Agradeço ao chão entre a gente por saber quando ser ímã e por cada ferrugem que corrói teus verbos, consoantes e vogais, no mais, tente atirar teus projéteis léxicos para qualquer outro, a mim, nunca mais. Tal como disparos de armas de fogo, algumas palavras podem ser letais.

23 março 2009

Até quando?




08/09/05

Por muito tempo eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade.
Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga.
Aí sim, a vida de verdade começaria.
Por fim, cheguei a conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade.
Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade.
A felicidade é o caminho!
Assim, aproveite todos os momentos que você tem.
Aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém.
Portanto, pare de esperar
Até que você termine a faculdade;Até que você volte para a faculdade;
Até que você perca 5 quilos;
Até que você ganhe 5 quilos;
Até que você tenha tido filhos;
Até que seus filhos tenham saído de casa;
Até que você se case;
Até que você se divorcie;
Até sexta à noite;
Até segunda de manhã;
Até que você tenha comprado um carro ou uma casa nova;
Até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos;
Até o próximo verão, outono, inverno;
Até que você esteja aposentado;
Até que a sua música toque;
Até que você tenha terminado seu drink;
Até que você esteja sóbrio de novo;
Até que você morra;
e decida que não há hora melhor para ser feliz do que agora mesmo...
lembre-se:
Felicidade é uma viagem, não um destino.

www.fotolog.net/peqna_vida

28 fevereiro 2009

Lição nº 1




Por onde andei eu para escrever tantas angústias misturadas com mensagens de esperança? A vida que se vive não é igual à vida do ser ao seu lado, com que autoridade anciã arremesso essas palavras aos olhos e ouvidos mais atentos? Autoridade de quem vive a vida num intenso turbilhão de acontecimentos dos quais, a maioria, são feitos de penar, tristes ais e dor. Por assim ser, existe uma incontrolável necessidade de recolher uma lição para seguir em frente, sem ela, a mente não suportaria a carga do mundo que criamos a nosso modo (grosso modo). A esperança é imortal, é tão humana quanto divina, está presente em todos nós, Deus tem esperança de sermos seres melhores, esperamos muito da vida, dos outros, de nós mesmos, esperamos ter esperança. Esperar e ter esperança geralmente não depende de nós, depende em grande parte dos outros, esperar é assistir atento, se todos lutassem por uma só causa, um objetivo comum a esperança seria somente um detalhe, uma conseqüência natural, seria somente esperar o resultado certo. Lutamos por motivos diferentes, criamos materialidades e abstrações que nos segregam, nos separam...

10 fevereiro 2009

Galope




É um galope de ilusão o que vivo ou é a vida que me carrega? Seguir um caminho, ir para algum lugar... Rédeas mentais me envolvem a cintura, a boca e o pescoço, tento me sacudir, me impedir, ficar imóvel ou mudar de direção. Ledo engano, sou sempre convidado bruscamente e com veemência a me reagrupar a sege e continuar correndo, correndo...
Com tapa-olhos laterais meu regozijo depende do que passa pelo caminho, rápido, súbito, de repente num piscar de olhos, meu prazer ocular não vai além do meu querer, vai do que esteja indo, vai do que esteja voltando, depende inexorávelmente do que se coloca à frente no momento.
Não sei para onde olhar, tenho que ser rápido, vez ou outra me confundo (há muitas sombras e reflexos) e perco o passo. Quando olho para os outros “caros colegas” atados a carruagem, os vejo tão impávidos, tão irresolutos, os vejo seguindo determinados, ansiosos, fixando o olhar para frente na linha do horizonte, sagazes, vigorosos.
Parece que lá na frente haverá um oásis de plácidas águas frescas, relva em fartura plena, verdejantes campos sem fim, sombra e som de cachoeira dos céus. Mas como podem saber disso se não sabemos para onde vamos? Como podem ter certeza? O rajar de chicotes ao meu pé do ouvido, gritos imperativos e açoites do homem que nos dirige não nos diz muita coisa, como eles sabem?
Só sei que sabem, queria acreditar mas é difícil, os deuses dos cavalos sabem o quanto eu queria acreditar e ter certeza para onde vou, mas em mim paira uma dúvida, um descontentamento ao acaso, um desânimo daltônico, uma tristeza à granel.
Minha vida é ruminar problemas, ruminar sonhos, ruminar desejos, ruminar o irruminável, tenho um primo Unicórnio, um amigo Pegasus, um tio Shadowfax, um cunhado Rocinante... Enquanto me vejo sob o julgo dos grilhões, enquanto houver amarras gastas me contentarei em acompanhar à galope (Allegro com brio) os demais, com um capim cigano na boca mostrando todos os dentes possíveis de cavalo dado e arredio.

02 dezembro 2008

Narcominese





"A vida moderna tornou o ser humano um teórico nato, uma mistura insensata de filósofo, vidente e psicanalista amador, transformou os padrões ultrapassados, porém valiosos, em fecundas e surreais idéias falsas de controle, liberdade e autosuficiência. Todos neste mundo moderno, debaixo deste mesmo sol, observam, avaliam e comparam. Todos acham que sabem, acham que te conhecem bem, acham que sabem bem o que você sente ou deixa de sentir, acham que são referência em algo, acham que são ótimos em alguma coisa...Mas o melhor (ou pior) de todos os enganos mundanos modernos, é o engano de se achar capaz de enganar, o de achar que pode esconder algo, o de achar que pode disfarçar os intentos tão profissionalmente quanto Marlon Brando. Dê-me um falsário, dê-me um agnóstico, dê-me um arbitrário, dê-me um egoista ferrenho, Dê-me um Chauvinista, um mitomaníaco... Só nâo me traga um patético camuflador de intenções, pois esta vida não precisa de mais ilusão de óptica destes ilusionistas classe B analógicos..."

25 novembro 2008

Melhor que um tango argentino!



Ela esbarra em meus sentidos e me deixa mais humano, todo tempo que a vejo é um tempo a mais no tempo, é um riso a mais no riso e um contentamento amigo e dócil, irmão do vício. Melhor que um tango argentino? Eu comparo a uma cachoeira de sorrisos, ela me dá um minuto que dura mais que um ano, é pouco tempo, é muito tempo mundano...

E nossas crises? Só ela sabe das suas, eu pouco sei de nada, enquanto ela espalha a Iris de um verde esmeralda. Então o q fazemos? Não sei, se soubesse seria mago ou pouco menos... Distantes como azulejos distantes do mesmo banheiro, ela casa-se com o acaso todos os dias, me ajuda a tanger a tristeza que quer raptar minha euforia, joga minha hipoteca de hipóteses no chão, opina em meus casos de amor, me dá a mão no olho do furacão, achando q é apenas vento de ventilador.

Ela me escuta e resmunga em outra língua, ela me abusa e emenda outra rima, pede licença depois de passar, e gosta de gente, cordas de gente pra arrastar, e tem mil vozes, tem mil unhas pra pintar? “Tenho vinte, mas demoram pra secar”. Pisca e arrisca, canta sozinha num musical de reprise, de repente, de relance pisca e arrisca ao alcance. Tem toda maluquice, toda sandice na cachola, trago ela, amiga longínqua, como escapulário no pescoço da memória.

Não me pede quase nada, só sinceridade atrevida, enrolo a dúvida numa dívida antes de encontrá-la na avenida. De um lado eu faiscando maluquices na pista, do outro ela sem freios nem rédeas na vida, noite adentro, vida afora, colidimos a milhas por hora, desmaio zonzo no asfalto de nossa capital enquanto ela recebe flores de um admirador nada secreto no hospital.

30 outubro 2008

Palavra


Ele era velho e mantinha concepções velhas em sua cabeça, velha cabeça, tão novo, tão velha. Não havia nada neste mundo que pudesse ser dito, escrito, interpretado, representado, comentado e criado que não pudesse, incrivelmente, ser adaptado aos seus velhos parâmetros eternos. Numa longa caminhada em busca de felicidade, em busca de ar regozijante aos pulmões apertados por situações irônicas da vida. Ele que pouco tinha, guardava todo seu orgulho em pequenas coisas que possuia, um troféru de 1º lugar no concurso de xadrez da escola, uma foto do coral da igreja, uma carta de amor da primavera de 1986, um caderno com dedicatórias de amigos... de todas as coisas que possuia a de maior valor pra ele, jovem ancião, era sua palavra. Se não possuia nada ao menos possuia a palavra, homem de palavra pensava ele, e quantas vezes a quebrou? quantas vezes não a fez cumprir? haveria redenção para ele que não possuia nada?

Muitas eram suas dúvidas mas, a única certeza era, a de que pouco se espera de alguém que pouco tem, muito se espera da única virtude da qual um homem tem a oferecer... Sua palavra era tudo, quando o pouco vira muito. Quando se quebra a palavra se quebra a figura do homem, se quebra o troféu no chão da sala da censura e reprovação alheia, rasga-se a única carta de amor, silencia-se a voz no coral, perde-se o caderno de boas recordações...
Não conseguia manter sua palavra, aos poucos todos desacreditavam, todos percebiam o fraquejar, a mudança de planos, o deixar pra depois, as promessas de um ano diferente. Até que um dia apareceu em sua porta um livro, com uma verdadeira palavra, bela, maravilhosa e invejável palavra que sempre se cumpria, no fim de cada prazo se cumpria, então ele a admirou e aprendeu a tê-la pra si com se dele fosse, pra ele tornou-se a sua palavra. Depois disso mais do que a palavra escrita, ele tinha a palavra na ponta da língua falada e lembrou que no coral era cantada, nunca mais precisou fraquejar nem adiar pois a palavra falava por ele, quando o pouco vira muito.

30 setembro 2008

Faltando palavras


Cresci no espaço de tempo entre os aplausos e o lavar do rosto do palhaço, nunca me coube motivação para esperar o outro espetáculo, sempre fui mais menino no corpo, tinha a alma envolta numa nuvem de estar adulto que raiar de sol algum dissipava. Vivia tentando ser outro que não eu, inventando liberdade, uma que jamais chegou, de noite e de dia, em pé e deitado, não desistia de tentar, e era bom. A mãe com a boca cheia de palavras que eu vivia a catar pelo chão, coitada, ela nunca soube guardá-las direito debaixo da língua, aonde quer que fosse sempre deixava para trás um rastro de sílabas barulhentas que ninguém mais queria apanhar. Digo verdadeiramente que me importava mais com as que ficavam na sua boca, pois estas sim poderiam fazê-la sufocar, eram palavras grandes, que não ouso pronunciar ou ainda escrever. As que caíam me deixavam aliviado por que eu as recolhia antes que alguém tropeçasse. Um dia acordei e desisti de tentar liberdade, lembrei que não tinha certeza de já tê-la colhido pelo chão, acho que esta era uma das poucas que mainha conseguia guardar de forma correta dentro da boca, talvez por ser palavra pequena, de resto, bonita, e foi então que abri os olhos e corri para conferir, no fundo da casa, palavras recolhidas, caídas da falta de jeito de mainha para engolí-las, haviam tantas, mas não achei liberdade, e qual não foi o meu espanto quando percebi que não era só esta, amor também nunca escapou de debaixo da sua língua, e outras que preferi não mais perceber. Mainha derrubava tantas palavras por onde passava que por muito tempo cheguei mesmo a desconfiar que fosse coisa proposital, seu andar nunca foi trôpego ou coisa assim. Hoje, as palavras não mais caiem da sua língua, penso que viva agora num silêncio melhor, então aprendi que não se deve deixar cair o que guardamos de forma correta. Sinto falta de apanhar do chão tantas palavras.
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[Moro num silêncio alugado, desisti do sonho da palavra própria] André Gonçalves

09 agosto 2008

Criador e Criatura

Sentados à luz de uma lareira esplendorosa que espantava a golpes a escuridão daquela noite fria, homens da cúpula do rei Alicário II, filho de Anamatério “O Eterno Sal”, estavam reunidos numa noite de festa e cantigas em meio a um lauto banquete e belíssimas dançarinas. Viam-se abastardos com o tempo da caça e da colheita e adoçavam a boca com um vinho da adega que só era aberta uma vez por ano, eles esperavam atentamente as estórias do mago Ozilus de Escandelarte, o maior dos magos tendo vivido todas, e mais alguns dias, das 40 gerações passadas. Ozilus chamou a todos para a sacada da imensa varanda lateral e contou-lhes uma estória jamais sabida:

“Contarei uma estória de um povo que viveu há muitas eras de distância de nós, há muitos mundos de caminhada sem fim, eram seres fabulosos, criaturas perfeitas, porém, viviam sobre o julgo de uma maldição, viviam com eles em seu mundo, seres chamados de Problemas.
Eram chamados Homens, todos eles adestradores de problemas, dissolviam-nos para que pudessem descer por entre suas gargantas fatigadas e assim pudessem encontrar a paz de cada dia. Muitos deles não acreditavam no poder destes seres, mas eles eram a miséria dos homens.
Viver era adestrar problemas, um após outro, ou muitos de uma vez só, viver era como encarar o mar revolto em ondas, vagas que se recusavam a retroceder, uma maior que a outra, viver era como fugir do sol que nascia todos os dias

Problemas eram como bolas de neve, nasciam pequenos e ínfimos, se tornavam maiores como monstros do pesadelo real de quem os nutria calidamente com a falta de providência. Problemas não aceitavam menosprezo, problemas não aceitavam falta de atenção, problemas não aceitavam subestima alheia.
Estes seres maravilhosos foram forjados no fogo da vida com o intuito, a sina e a missão de adestrar problemas, de todos os tipos, de todos os credos, de todas as raças, de todo inconsciente coletivo. Problemas eram o passa-tempo amargo e edificante, problemas eram domesticados, amarrados e cativados para os que conseguiam dominá-los. A maioria deles tinha por ventura um ponto fraco, era no meio de seus olhos famintos por adestradores fracos (amadores da falta de experiência).
Um problema tinha neste mundo a missão de se agarrar com unhas e dentes sobre o alvo para o qual foi criado, um problema era feito para procurar, imobilizar, sugar e talvez destruir seu mestre. Contam que o ponto fraco destas criaturas era entre os seus olhos, e só podia ser tocado se olhassem a criatura de frente e encarassem-no fixamente, destemidamente, desmedidamente bravios.
O maior dos problemas era aquele que se instalava, criava, reproduzia e proliferava outros assim como o primeiro, criaturas ferozes e abomináveis. Contam que Sir. Amadeus D´Gaule, um grande cavaleiro, matou o maior dos problemas na colina do Desespero Errante, à margem do Penhasco dos Cortadores de Pulso, a leste da Vila do Desencanto, junto a uma grande depressão acidental. Seus esforços foram tamanhos que a batalha durou por 7 dias e 7 noites e, tendo Sir. D´Gaule abraçado a defesa do pobre dominado pelo mal grotesco, era de sua inteira responsabilidade matá-lo. Diz a lenda que eles se extinguiram afogados em seus próprios problemas e que seu mundo desapareceu num grande julgamento".

Fez-se grande silêncio;

“Agora voltem a beber o vinho de suas taças e agradeçam a bênção que nos foi dada com uma vida livre de medos e de criaturas como estas, capazes de destruir todo um mundo... Brindemos!”