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08 abril 2009

Amor extra




É sempre o mesmo sentimento. - Amor tecido de palavras -, não há abraços, nem de despedida, nem de chegada, e a pele nua. A gente tem cuidado dos nossos dias, mas nos esquecemos de cuidar da gente, vestir os dias. Os dias... Estes cuidarão de si mesmos, importa que nos importemos com o principal: teu abraço caber no meu abraço. O abraço é o laço do corpo, enfeita os amantes qual caixinha de surpresa. Nossas vidas são adornadas no momento do toque, no enlace. Abraça-me, pois a falta decidiu esculpir em meu corpo uma forma que não é minha e me deixa nu a todo instante, nenhuma roupa mais me cai bem. A solidão cortou meus cabelos e me cobriu com outras vestes, fazendo da saudade minha melhor roupa de sair. Sinto falta de ver vestir você a minha pele nua...

Daquilo que ofusca


Quando teus pés tocaram meu mundo todos te notaram, havia um bando de estrelas, destas sem sorte alguma, que te seguiam por onde quer que fosses, diziam tentar reaprender brilho, e confesso que em ti havia muito. Teus olhos pariam luz para todos os lados e cegavam os meus diante de quaisquer outros, nos cabelos, um raiar de sol incomodava escuro, eram a ausência de cores mais terrivelmente brilhante que já me escorreu por entre os dedos. Teus lábios me confundiam os sentimentos, que, um a um pulavam de dentro da minha para a tua boca... a tua boca, brilho doce em molhados aromas de frutas destilando prazer em sabor de beijos. Teus brincos, pulseiras e colares, ofuscados eram sempre de constrangimento ante tua presença, “próximos demais dela estamos”, diziam, e saindo do tom em opacas tristezas, se diluíam em mareados de lágrimas. Na tua pele, a jovialidade pálida de outrora cedia sempre lugar ao rubor experiente da minha carícia em arrepio de gemidos, eram as reações de química mais cintilantes que já me ocorreram às vistas, e eu, cegado por tua luz que fui, ainda assim tive a chance de continuar percebendo as muitas estrelas que te acompanhavam aonde quer que fossem teus pés, de início eram poucas, hoje, constelações inteiras se reúnem em torno de ti, para depois de muito suspirarem, metade precipitar-se ao solo, apagando-se quase que para sempre tal estrelas sem fé, e metade, uma a uma reaprender brilho, este que nunca te faltara. Quando teus pés tocaram meu mundo todos te notaram, havia um bando de estrelas, destas sem sorte alguma que te seguiam por onde quer que fosse, diziam estas tentar reaprender brilho.

Nuances





Ela ficava bem de preto, nós pensávamos branco, agora prefiro não usar nada, ao menos quando me deito. Ela tinha uma voz não invisível ao me assoviar seus nomes, e eram tantos, alguns gerados em apelidos. Eu, distante de tudo o que é feliz, nunca acertava assoviar-lhe o meu, não pra fora, como o convencional, alguns poucos sons se ouvia, mas só quando eu tentava pra dentro, coisa desimportante. Um dia, ela em falsete solfejou meu nome ao ouvido, um que jamais antes ouvi, e chorei, pranteei muito e tanto. Meu nome era uma música triste, a melodia me partia o coração, quis não gostar, mas era linda a canção, passei assim a todos os dias pedir que me chamasse pelo novo nome, esse que eu não conhecia, era sempre na hora de dormir. Parecia que a dor que sentia me trazia contentamento. Hoje, queria nunca mais te ouvir musicando meu nome, poetizando meu nome, mas isso soa tão difícil, mesmo pra mim, que já não acredito nas coisas que escuto, quis tampar com as mãos os ouvidos, desisti. De ouvidos tampados eu também te ouço.

Durma, medo meu


Para aquela que não entendeu o mundo antes de partir, não entendeu ser mãe, sem saber amizade viveu, morrendo, não se sabia filha. A dor brincou em frente à sua casa e então resolver visitá-la, entrou, mas nunca mais saiu, mudou-se de vez para lá, agora dorme lado a lado com a saudade que ela nos deixou de herança. Vou arrumar uma cama bonita, quiçá um berço, para que essa dor durma menos leve do que nós. É que toda dor acorda quando fingimos dormir.

03 abril 2009

Da janela


De quando eu te fazia morada pouco resta agora, já não há regozijo em te ver passar em frente à nossa janela e avisar que chegou, fingindo sempre se esquecer da chave só para que eu vá te receber. Abro o portão para que entre, mas tranco o meu coração e engulo a chave. A casa ainda é por nós ocupada, mas vazia agora está tua alma, eu fui embora de ti. Quem vai morar em você agora?

De ontem em diante


Quem é você? Onde você mora? Onde mora o teu coração? Quem mora no teu coração? Eu te conheci, mas não mais te reconheço, coisa estranha uma metade de nós mesmos, companheira de quase uma vida, vir a ser uma estranha. Quase... sempre essa palavra, repetidas vezes a pronunciei em silêncio ao teu lado, do meu lado, até perder o sentido, não mais palavra então, apenas fonemas mal pronunciados em desalinho com teu silêncio, ditas de fora pra dentro. Quem vai me responder quando a solidão cortar teus cabelos, quem vai te ouvir quando a dor roubar os meus? Onde você estará quando o tempo fizer franzir sua testa contra a tua vontade? Quem estará ao teu lado, e dentro de ti?
Tendo-te ou não ao meu lado, um caminho ainda existirá para mim...

Respostas


Todas as pessoas, das tristes às felizes, elas não sabem viver sem respostas, quando querem se preparar para a vida, estudam, quando vivem sem se prepararem, são ainda maiores as dúvidas, se a morte, sem aviso lhes rouba alguém que amam, não entendem e seguem num ritual infindável e sufocante de questionamentos que com o tempo apenas tornam-se maiores. Uma vida sem muitas respostas é uma casa com grandes janelas que apontam para a mesma paisagem, caso queiramos enxergar o que existe do lado de fora, não importa a escolha, de qualquer uma que olhemos, a vista será sempre a mesma.

Mudanças




Tão quieto era teu sono que eu quase te ouvia sonhar, mas o tempo está passando e agora te ouço em brincadeiras com coleguinhas de colégio e amiguinhas da vizinhança, já não sei o que tu sonhas, nem onde e quando aprendera o significado da palavra “problema”, tua pouca idade ainda faz tua morada na infância e eu esperava que isso nunca mudasse, mas os anos virão aos poucos roubando o melhor da gente, a inocência. Sê criança pra sempre meu amor, pois a estas pertence o Reino dos Céus.

Solidão assistida


Eu já senti felicidade da que todos percebem, já perdi o senso de direção andando na rua, já me ocorreu satisfação incontível das que rasgam em sorrisos dentário-exibicionistas, algumas dessas sensações vestem pijamas quando me deito e passam a noite disputando o cobertor comigo, meus pés descobertos e elas rindo, rindo, rindo. E eu, que por medo do dia amanhecer e outra vez ficar sozinho, passo o dia com saudade das coisas que posso sentir e simplesmente não sinto. De manhã, quem me desperta é a solidão...

Abraço


Teve uma vez um abraço, um que eu nunca esqueci, foi o único que me coube por completo. Então aprendi como isso era bom. Mas parei de abraçar. Digo, não sei ao certo quem parou, se eu, ou a outra. Foi quando desaprendi tudo de novo. Fiquei burro de abraço, nem mãe, nem pai, nem amigos, sequer irmãos, e por último, sobrinhos. Burrice de abraço requer muito estudo para curar.“Admiro a sanidade saudável dos braços inteligentes.”